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Diário Pessoal

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28
Jan17

Um jantar

Mariana Cunha Sousa

 

Já vos falei do meu rico sobrinho? Quinze aninhos olímpicos. Um assombro. Um desportista. Pratica sei lá eu quantas modalidades. Ao mesmo tempo, desenvolve uma ignorância que até para os seus quinze anos e até para um gigante físico é demasiada. Não fosse a sorte de ter uma boa herança genética (que acredito/espero, o irá salvar) e afirmaria que temos à nossa frente um possível e irremediável burro!

Os pais (a mãe é minha irmã) separaram-se quando o rapaz tinha seis ou sete anos. Sem crença e sem uma família comum, enfiaram-no no desporto. Sou grande apologista das vantagens do exercício físico mas, cuidado, penso que tudo o que se encontre para lá do desentorpecimento muscular, alongamentos e que tais,uma atrocidade, um delito grave à civilização. Civilização é ócio.

Retomando, este meu sobrinho é uma fonte de saúde, bonito como Pátroclo e como só é possível ser aos quinze anos: dramaticamente. Não é que lhe tenha sucedido alguma tragédia. É a distinta beldade que aos quinze anos só pode ser terrível, como aos sessenta e nove só deve ser cómica, decrépita. Ora, há um par de dias, o rapaz, para enorme angústia materna, chegou a casa escoltado de um ser lindíssimo, uma Dafne ou, para os menos entendidos em antiguidades excessivamente antigas, uma Natalie Portman. Os dois são, persisto, dramaticamente belos. Particularmente sempre que estão calados. Quando falam, geram um ruído desconfortável que os dessacraliza. A vontade é de os mandar calar: “Vivam em silêncio, por favor! Medonhamente perfeitos e superficiais.”

Contudo, o pior ainda acabou por ser a mãe dele. De forma a não entrar em grandes pormenores, digo apenas que a minha mana já votou diversas ocasiões no Bloco de Esquerda mas acredito que atualmente tornou a ser socialista. Ela não mo admitiu, mas estou convencida que se alistou como partidária para votar nas primárias. Se o fez, votou no Costa, seguramente. Só isto é bastante para justificar a obscena palestra com que ela danificou, receio que de maneira irrecuperável, aquelaes duas criaturas. Falou em contraceção, pilula do dia seguinte, dispositivos intra-uterinos e espermicidas. Isto durante um jantar suburbaníssimo.

Fomos levados conjuntamente para uma sala de consulta de um centro de saúde ainda mais suburbano. Só ficaram a faltar as famílias ciganas e as idosas de sacos a atulhados de remédios. A minha irmã, com a propensão para ver nas pessoas apenas a faceta sociológica, não entende que tais seres, são algo diferente. Encontram-se a salvo dessas desgraças banais, gravidezes, etc. É aquela beleza impraticável que os salva. E é igualmente a beleza que os ameaça. Só a futilidade é capaz de impedir a desgraça total. Se repentinamente adquirem perceção da beldade mortífera de que são portadores, receio que se matem como apaixonados literários, gloriosos.

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